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1906-2006 – CEM ANOS DA DOENÇA DE ALZHEIMER

Em 1906 o Dr. Alois Alzheimer descreveu o caso de uma mulher de 55 anos que fora internada por progressiva dificuldade de memória, de linguagem, desorientação e delírio de ciúme em relação ao marido. Após três anos a paciente faleceu e, examinando seu cérebro, o Dr. Alzheimer descreveu alterações muito características, que ficaram conhecidas como placas senis e emaranhados neurofibrilares.

O caso foi apresentado em uma reunião da Sociedade Médica do Sudoeste da Alemanha e despertou pouca curiosidade. Nos próximos 60 anos considerou-se a doença de Alzheimer como uma doença rara. É claro que neste período muitas pessoas idosas recebiam diagnóstico de demência, que era atribuída à deficiência de circulação cerebral e para qual se tentava, sem sucesso, medicação ativadora da circulação cerebral. Esta foi a época do auge da noção de esclerose cerebral.

A partir dos anos 60 o processo de envelhecimento da população nos países desenvolvidos acelerou-se, mais casos de demência passaram a ser reconhecidos, e o peso do problema sobre os sistemas de saúde e assistência social tornou-se mais significativo. Estudos de diferentes aspectos das demências se multiplicaram. Necrópsias sistemáticas rapidamente mostraram que a maior parte dos idosos falecidos com demência, apresentava as mesmas alterações da supostamente rara doença descrita no início do século XX.

Com a real dimensão do problema sendo reconhecida, a expressão “epidemia silenciosa” foi cunhada, nos anos 70. Ao final dos anos 70 verificou-se que, na doença de Alzheimer, há uma significativa redução na disponibilidade de um neurotransmissor chamado acetilcolina, que está envolvido nos processos de aprendizado e memória e cuja deficiência pode explicar parte dos sintomas da doença.

Esclerose, demência, doença de Alzheimer é tudo igual?

Esta é uma dúvida ouvida com frequência, em particular se é possível uma diferenciação.

Antes de falar sobre estas diferenças é necessário falar um pouco sobre memória e envelhecimento. O envelhecimento traz alterações para todo o organismo, pele, olhos, ossos, e tudo se transforma de alguma maneira. Com o cérebro não é diferente. Com o envelhecimento ocorrem alterações anatômicas e funcionais. Exames de tomografia ou ressonância magnética mostram que há uma redução de volume, isto é, o cérebro fica menor. Em geral as pessoas pensam que isto acontece porque as células cerebrais, os neurônios, morrem. Isto é apenas parcialmente verdadeiro, enquanto alguns neurônios de fato desaparecem, outros diminuem de volume, o que claro, não é a mesma coisa. Mais importante, estas transformações não acontecem do mesmo modo em todo o cérebro, enquanto são acentuadas em algumas áreas, quase não ocorrem em outras. Além destas alterações anatômicas, isto é, alterações na estrutura do cérebro, ocorrem também mudanças no modo como ele funciona.

Isto é bem evidente em relação a memória, o que poderia explicar porque tantos idosos se queixam de dificuldade de memória.

Estudos em diferentes regiões do mundo, mostram que mais da metade das pessoas com mais de 65 anos afirma que sua memória declinou com o envelhecimento. O processo de memorização pode ser mais difícil para uma pessoa idosa porque a memória fica mais lenta e é mais difícil deixar de prestar atenção em coisas que estão acontecendo ao mesmo tempo e que podem tirar a atenção daquilo que a pessoa quer memorizar. Por isso os idosos precisam mais tempo para memorizar e podem mais facilmente ter sua atenção desviada daquilo que querem memorizar.

Estas alterações não acontecem do mesmo modo em todas as pessoas, e uma prova disso são pessoas que, mesmo em idade avançada, têm excelente memória. É bom lembrar, há uma grande diferença entre memória mais lenta, que pode acontecer no envelhecimento, e nenhuma memória, que pode ser consequência de diferentes doenças e precisa ser avaliada.

Infelizmente muitas pessoas podem ter dificuldade de memória por alterações da saúde. A depressão, o uso de tranquilizantes e outras causas podem prejudicar a atenção e a memória em pessoas idosas.

Demência é uma palavra derivada do latim que significa ausência ou perda da mente. O que acontece com essas pessoas é uma progressiva dificuldade de memória para fatos recentes, elas esquecem recados, compromissos, onde guardaram objetos. Além disso, podem ter também dificuldade com atividades que requeram planejamento, como controlar finanças e preparar para uma viagem. Podem também ter dificuldade para encontrar palavras. Todos nós, uma vez ou outra, podemos ter falhas deste tipo. Uma diferença entre o envelhecimento normal e a demência é que aqui as falhas são tão frequentes que acabam interferindo no dia a dia da pessoa, levando-a, por exemplo, a abandonar a leitura ou ter dificuldade em controlar seus gastos.

Esclerose vem do grego, “escleros”, que quer dizer endurecimento das artérias. O raciocínio aqui é o seguinte: para algumas pessoas ocorre endurecimento das artérias cerebrais. Por esta razão o cérebro recebe menos sangue, e por isso neurônios morrem, levando a dificuldade de memória e outras alterações.

E que doença é a demência?

Na realidade estamos falando de um grupo de doenças, isto é, as alterações que em conjunto chamamos de demência podem ter diferentes causas. Por exemplo, pessoas com hipertensão, diabetes, alteração de colesterol mal controladas podem ter isquemias cerebrais em sucessão e demenciar. De longe as causas mais comuns de demência são as degenerações primárias do Sistema Nervoso Central, isto é, doenças nas quais, por razões que ainda não estão claras, ocorre uma progressiva perda de neurônios, com o desenvolvimento dos sintomas da demência. Entre as degenerações primárias a mais comum, sem dúvida, é a doença de Alzheimer, que é responsável por 50 a 70% das demências.

Demência e esclerose são termos equivalentes, mas esclerose, por diferentes razões não é adequado. A demência tem várias causas possíveis, a mais comum sendo a doença de Alzheimer. Podemos então dizer que todas as pessoas com doença de Alzheimer têm demência, mas nem todas as pessoas com demência têm doença de Alzheimer.

Conforme mensagem da Princesa Yasmin Aga Khan, presidente da Alzheimer´s Disease International e filha de Rita Hayworth, a atriz que teve a doença de Alzheimer – “ foi descoberto no ano passado, que um novo caso de demência surge a cada sete segundos no mundo. A repercussão desses números alarmantes é assustadora. Cada pessoa com demência precisa de cuidado constante, e seus cuidadores precisam também de informação e apoio. Os governos precisam se preparar para aumento projetado para a população com demência, que vão acarretar uma grande demanda nos serviços de saúde”.

João Senger
Presidente da Associação Brasileira de Neuropsiquiatria Geriátrica




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